A Tradicao Hípica Portuguesa

Fotografia histórica a preto e branco de um hipódromo português do século XIX

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A Tradicao Hípica Portuguesa – Uma História de 158 Anos

Quando digo a alguem que Portugal tem uma tradicao hípica com mais de 150 anos, a reação e quase sempre de surpresa. A maioria das pessoas associa corridas de cavalos a Inglaterra, França ou aos Estados Unidos. Mas as primeiras corridas organizadas em Portugal aconteceram em 1868 em Évora – apenas três décadas depois da fundacao do Jockey Club em Londres e numa eépoca em que o desporto hípico se espalhava pela Europa como símbolo de modernidade e prestigio social.

Esta história e simultaneamente rica e tragica. Rica porque Portugal teve hipódromos, jockeys, proprietarios é uma cultura hípica genuina durante mais de um século. Tragica porque, ao contrário dos vizinhos europeus, Portugal deixou essa tradicao morrer. Compreender como chegamos aqui é essencial para quem quer entender o estado atual das apostas hípicas no país.

As Primeiras Corridas em Évora e o Hipódromo de Belém

Évora, 1868. Numa cidade alentejana conhecida pelo seu templo romano e pela universidade, um grupo de entusiastas organizou as primeiras corridas de cavalos formais em Portugal. Não era ainda o espetáculo glamoroso de Ascot ou Longchamp – eram corridas modestas, disputadas em terrenos improvisados, com cavalos criados localmente e público maioritariamente aristocrático.

Seis anos depois, em 1874, foi construído o Hipódromo de Belém, em Lisboa. Este foi o primeiro hipódromo permanente do país e representou um salto qualitativo enorme. Com infraestrutura dedicada, bancadas para espectadores e pista adequada, as corridas de cavalos passaram de evento regional a espetáculo metropolitano. A localizacao em Belém, junto ao Tejo, conferia ao evento um enquadramento cenico que atraia a elite lisboeta.

O final do século XIX foi o período de maior entusiasmo inicial. As corridas em Belém tornaram-se eventos sociais de primeira ordem, comparaveis aos que aconteciam em Paris ou Londres. A imprensa da eépoca dedicava páginas inteiras aos resultados, aos cavalos vencedores e aos proprietarios. Existia até um circuito informal que ligava Évora, Lisboa e Porto, com cavalos e proprietarios a deslocarem-se entre cidades para competir.

O que distinguia o modelo português do britânico ou do francês era a escala. Enquanto a Inglaterra já tinha centenas de corridas anuais e a França desenvolvia o sistema de apostas mútuas que daria origem ao PMU, Portugal mantinha uma atividade hípica de dimensão modesta, dependente do mecenato aristocrático e sem a base económica que as apostas ofereciam noutros países.

O Auge e o Declínio – Sociedade Portuguesa de Corridas

O século XX trouxe momentos de glória e um longo declínio. Nas décadas de 1920 e 1930, as corridas de cavalos viveram o seu auge em Portugal. O Hipódromo da Quinta da Marinha, no Estoril, tornou-se um polo de atração para a elite internacional que frequentava a Riviera Portuguesa. Diplomáticos, aristocratas exilados e empresários misturavam-se nas bancadas, e as corridas eram tão parte da temporada social quanto os casinos e os hotéis de luxo.

A Sociedade Portuguesa de Corridas de Cavalos, fundada para organizar e regular a atividade, funcionou durante décadas como o pilar institucional do desporto. Sob a sua egide, realizavam-se corridas regulares, criavam-se regulamentos e mantinha-se um registo de cavalos e proprietarios. Mas a organização nunca conseguiu resolver o problema fundamental: a falta de um modelo económico sustentavel.

Enquanto a França financiava os seus hipódromos com as receitas do PMU e a Inglaterra integrava as apostas na própria estrutura do desporto, Portugal nunca criou um sistema equivalente. As corridas dependiam de subsidios, patronato e bilheteira – fontes de receita insuficientes para manter infraestruturas e atrair investimento a longo prazo.

O declínio acelerou na segunda metade do século XX. Os hipódromos foram fechando, um a um. A urbanizacao consumiu terrenos que antes serviam para corridas. O interesse público migrou para o futebol, que se tornou o desporto dominante em Portugal. A Sociedade Portuguesa de Corridas de Cavalos encerrou atividades em 1997, marcando o fim formal de uma era.

A Situação Atual – 200 Cavalos e Nenhum Hipódromo Ativo

Hoje, Portugal tem entre 200 e 250 cavalos de corrida. A Liga Portuguesa de Criadores e Proprietarios de Cavalos de Corrida estima que, quando os hipódromos estiverem em pleno funcionamento, essa realidade será de cerca de 10 000 cavalos. A diferença entre 250 e 10 000 resume a distância entre o que existe e o que poderia existir.

Não há nenhum hipódromo ativo em Portugal. Os cavalos portugueses que competem fazem-no em Espanha, França ou noutros países europeus. Os criadores e proprietarios mantem a atividade por paixao, não por viabilidade económica. E uma situação singular na Europa Ocidental – praticamente todos os países vizinhos tem hipódromos ativos, calendarios de corridas regulares e mercados de apostas hípicas funcionais.

O quadro legal existe. O Decreto-Lei n. 68/2015 estabeleceu o regime jurídico para apostas em corridas de cavalos em Portugal e atribuiu a operação a Santa Casa da Misericordia de Lisboa. Estão previstos três hipódromos – no Porto, em Lisboa e no Algarve. Mas a construção nunca avancou de forma concreta, e cinco empresas que se candidataram a explorar apostas hípicas online não obtiveram licença por falta de certificação completa.

A ironia é que o potencial económico está documentado. O mercado de apostas em corridas de cavalos em Portugal poderia gerar aproximadamente 300 milhões de euros por ano e criar cerca de 6 000 postos de trabalho, segundo estimativas da Liga Portuguesa de Criadores e Proprietarios. Para um país que gerou 337,6 milhões de euros de receita bruta de jogo online só no quarto trimestre de 2025, o hipismo representa um segmento por explorar com dimensão significativa.

O que falta não e enquadramento legal, nem potencial económico, nem tradicao histórica. Falta vontade politica e investimento. Ate que esses dois elementos se alinhem, as apostas em corridas de cavalos em Portugal continuarao a ser uma promessa por cumprir – uma história rica a espera de um novo capítulo.

Quando foi a uúltim corrida de cavalos oficial em Portugal?
A atividade hípica organizada em Portugal terminou com o encerramento da Sociedade Portuguesa de Corridas de Cavalos em 1997. Desde então, não existem corridas oficiais regulares no país, e os cavalos portugueses competem no estrangeiro.
Existiu algum cavalo português famoso no circuito internacional?
A história hípica portuguesa teve cavalos de destaque no ambito nacional, mas a dimensão limitada do circuito português não permitiu a projeção internacional comparavel a cavalos britanicos, franceses ou americanos. Os criadores portugueses atuais concentram-se em manter linhas de sangue de qualidade para competicoes no estrangeiro.