Os Hipódromos que Portugal
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Os Hipódromos que Portugal Precisa para Ter Apostas Hípicas
Há uma verdade inconveniente no centro de toda a discussão sobre apostas hípicas em Portugal: não há onde correr. Podes ter a melhor legislação do mundo, os operadores mais sofisticados e os apostadores mais entusiastas – sem uma pista, não há corrida. E sem corrida, não há aposta. Os três hipódromos previstos pela regulamentação de 2015 são, neste momento, o elo que falta entre o potencial económico e a realidade.
A Portaria que acompanha o Decreto-Lei n. 68/2015 define especificacoes concretas: cada hipódromo deve ter uma capacidade mínima de 3 000 espectadores e 1 000 lugares de estacionamento. Estão previstos três – nas zonas do Porto, de Lisboa e do Algarve. Passaram mais de dez anos desde está regulamentação e nenhum deles saiu do papel.
Três Hipódromos Planeados – Porto, Lisboa e Algarve
A escolha das três localizacoes não e arbitraria. O Porto, Lisboa e o Algarve representam os três principais polos económicos e turisticos do país, e cada um traria vantagens distintas ao circuito hípico português.
Um hipódromo na zona do Porto serviria a região Norte, a segunda maior concentração populacional do país. A tradicao equestre no Norte de Portugal e forte, com uma cultura de criação de cavalos enraizada no Minho e em Tras-os-Montes. Um hipódromo moderno poderia capitalizar essa base cultural e transformar uma atividade ruralizada numa industria económica urbana.
Lisboa e a escolha obvia para o hipódromo principal. A capital concentra a maior parte da atividade económica, turistica e mediatica do país. Historicamente, o Hipódromo de Belém já demonstrou que Lisboa pode ser palco de corridas de cavalos com público significativo. Um novo hipódromo na Grande Lisboa teria acesso direto aos maiores centros populacionais e aos circuitos turisticos internacionais.
O Algarve oferece uma proposta diferente. A região recebe milhões de turistas por ano, principalmente britanicos, alemaes e holandeses – nacionalidades com forte tradicao de apostas hípicas. Um hipódromo no Algarve poderia funcionar como destino de turismo hípico, atraindo visitantes que já apostam em corridas nos seus países de origem é que apreciariam a experiência num clima mediterranico. O modelo do Algarve International Circuit, que atrai eventos de Fórmula 1 e MotoGP, demonstra que a região tem capacidade para infraestruturas desportivas de grande escala.
A especificação de 3 000 espectadores e modesta comparada com os grandes hipódromos europeus – Longchamp em Paris recebe mais de 50 000, e Ascot acomoda 80 000 – mas é uma dimensão adequada para o lancamento de uma industria que parte praticamente do zero. O importante é que os hipódromos sejam desenhados para crescer, com infraestruturas escalaveis que possam ser ampliadas a medida que a procura aumente.
Os obstáculos a construção são multiplos. A identificação de terrenos adequados nas zonas previstas requer negociacoes com autarquias e proprietarios. Os estudos de impacto ambiental, os processos de licenciamento urbanistico e a obtencao de financiamento são etapas que, em Portugal, podem demorar anos. Para além da construção dos hipódromos em si, e necessária infraestrutura complementar: instalações de treino, estabulos, clinicas veterinarias e centros de formação para jockeys e tratadores.
Impacto Económico – 300 Milhões de Euros e 6 000 Empregos
Ricardo Carvalho, presidente da Liga Portuguesa de Criadores e Proprietarios de Cavalos de Corrida, estimou que todo o negócio hípico pode gerar 300 milhões de euros por ano em Portugal e criar seis mil postos de trabalho. Estes números vao muito além da simples construção e operação de hipódromos.
A cadeia de valor do hipismo e surpreendentemente extensa. Começa na criação e treino de cavalos – que requer terrenos, instalações, veterinarios, tratadores, nutricionistas equinos e ferradores. Passa pela operação dos hipódromos – gestão, manutenção, segurança, hotelaria e restauracao. Inclui a industria de apostas – plataformas, tecnologia, regulamentação e fiscalização. E estende-se ao turismo – hotéis, transporte, merchandising e média.
Portugal tem atualmente entre 200 e 250 cavalos de corrida. A Liga estima que hipódromos em pleno funcionamento elevariam esse número para cerca de 10 000 cavalos. Cada cavalo de corrida gera emprego direto para aproximadamente duas a três pessoas – tratador, ferreiro, veterinario – e emprego indireto significativo em alimentação, transporte e serviços associados.
O impacto fiscal também seria consideravel. Olhando para o modelo francês, onde o PMU gera 10 mil milhões de euros de volume e contribui substancialmente para o orçamento do estado, mesmo uma fração desse volume em Portugal representaria uma nova fonte de receita fiscal. Os operadores portugueses já pagaram 99,3 milhões de euros em imposto especial de jogo online só no quarto trimestre de 2025 – as apostas hípicas adicionariam uma nova camada a está receita.
O turismo hípico é uma vertente frequentemente esquecida mas com potencial real, especialmente para o Algarve. Eventos hípicos de qualidade atraem turistas internacionais que gastam em hotelaria, restauracao, transporte e entretenimento além do próprio hipódromo. O Festival de Cheltenham no Reino Unido gera estimativas de impacto económico regional na ordem dos 100 milhões de libras por edição. Portugal não precisa de replicar essa escala para que o turismo hípico seja economicamente relevante.
A experiência da Irlanda, um país de dimensão comparavel a Portugal, e inspiradora. A industria hípica irlandesa gerou 2,46 mil milhões de euros em 2024 e assegurou mais de 30 000 empregos. Portugal não precisa de atingir a escala irlandesa para que a industria seja economicamente viavel – mas o exemplo demonstra o que é possível num país de dimensão semelhante com um compromisso sério com o sector.
O obstáculo não e técnico nem legal. O Decreto-Lei existe, as especificacoes estão definidas, o modelo económico está documentado. O obstáculo e o investimento inicial e a vontade politica de o concretizar. Enquanto esses hipódromos não forem construidos, as apostas em corridas de cavalos em Portugal continuarao a ser uma possibilidade teorica e não uma realidade económica.
